Sendo autista e mãe de um garoto autista, assistir a jornada de Sam Gardner foi menos entretenimento e mais uma reunião. Essa é a melhor série ficcional sobre o assunto, e vou explicar o porquê.

Atypical, na minha perspectiva, é uma das séries mais importantes sobre autismo já feitas. Acompanhando a premissa aparentemente simples de Sam Gardner, um adolescente no Transtorno do Espectro Autista em sua busca por independência e amor. E a série da Netflix faz algo que poucas conseguem: ela acerta.
Sendo autista e mãe de um garoto autista maravilhoso, assistir a essa série foi como encontrar um espelho. Em muitos momentos, me senti vista e representada, especialmente porque apresento muitas similaridades com o autismo do Sam. É por essa lente, que mistura análise crítica com a realidade vivida, que analiso a série.
O Retrato de Sam: O Acerto e a Evolução
É impossível não começar por Sam Gardner. O ator Keir Gilchrist, embora neurotípico, entrega uma performance de um realismo impressionante. Ele conseguiu capturar as nuances mais difíceis: a linguagem direta e literal, a consistência nos trejeitos corporais ao longo de toda a série, a forma de lidar com a desregulação sensorial e os desafios sociais. Mais importante, ele humaniza Sam, mostrando seus anseios universais por independência, como cursar uma faculdade ou ter uma namorada.
No entanto, é fundamental fazer uma observação que a própria série reconheceu. Uma crítica muito justa da comunidade autista à primeira temporada foi que eles não escalaram atores autistas para papéis autistas.
O grande mérito de Atypical foi em ter a humildade de ouvir a comunidade, aprender e evoluir. A partir da Segunda Temporada, os criadores fizeram uma correção de curso muito importante, evoluindo da simples representação para a inclusão. Para garantir que as histórias fossem mais autênticas, eles trouxeram consultores como David Finch (autor autista) e escalaram um grupo fantástico de atores autistas para interpretar os membros do grupo de apoio de Sam, incluindo Domonique Brown (Jasper), Spencer Harte (Sabrina), Nikki Gutman (Lily) e outros. Essa mudança não foi apenas simbólica; ela enriqueceu a narrativa, trouxe novas perspectivas e tornou o mundo de Sam muito mais real.
O Roteiro: Mais que Sam, um Ecossistema
O verdadeiro brilho do roteiro de Atypical, comandado pela criadora Robia Rashid (vinda de comédias de sucesso como How I Met Your Mother e Will & Grace), é que ele descreve que o autismo não é uma ilha. A jornada de Sam é o catalisador, mas a série é, na verdade, sobre o “ecossistema” ao seu redor.
Isso explica o DNA da série. Atypical não é um drama pesado. É uma dramedy (comédia + drama). O roteiro tem o ritmo rápido, as piadas inteligentes e a estrutura de “tramas A e B” (a trama de Sam e as tramas paralelas da família) que são típicas das comédias de TV. A genialidade foi aplicar essa fórmula a um tema muito mais sensível e profundo.
Robia Rashid não é autista. Ela mencionou em entrevistas que a inspiração veio de querer contar uma história sobre se sentir “diferente” ou “atípica” (ela citou sua própria experiência como uma pessoa birracial). Ela usou o autismo como a “lente” para explorar esse sentimento. Isso explica o coração da série em criar o desejo genuíno por empatia, e os pontos cegos da 1ª temporada, marcada por uma visão de fora para dentro.
O roteiro da 1ª temporada foi escrito sobre autismo, a partir da 2ª temporada foi escrito com autistas. E a adição mais importante foi o autor autista David Finch (autor do livro de memórias The Journal of Best Practices) que foi contratado como consultor.Ele lia os roteiros, estava no set e ajudava a garantir que a experiência de Sam fosse autêntica, não apenas baseada em pesquisa, mas em vivência. Tornando-se mais inclusivo e autêntico.
E um dos aspectos que o roteiro acertou em cheio foi dar peso e profundidade para cada membro da família Gardner, mostrando como a busca por independência de Sam força todos eles a confrontar suas próprias vidas.
A Família Gardner: O Espelho Complexo
É na análise da família que minha perspectiva se torna mais complexa. Se Sam é o centro, é a família que mostra o verdadeiro impacto de sua jornada.
Começando por Elsa (Jennifer Jason Leigh), a mãe. Como mãe de um menino autista, eu entendo o medo de “soltar”. No entanto, como eu mesma não sou neurotípica, muitas das ações de Elsa me pareceram simplesmente “absurdas”. A série é brilhante ao retratar como a identidade de Elsa estava tão consumida em ser a “mãe do Sam” que, quando ele busca independência, ela se perde.
A atuação de Jennifer Jason Leigh é corajosa, pois ela não tem medo de mostrar um personagem falho. E embora as escolhas de Elsa sejam questionáveis, posso entender (sem justificar) as “válvulas de escape” que ela está procurando desesperadamente.
A série também acerta ao mostrar o “apoio” que Elsa busca. Na minha experiência como autista, senti que muitos grupos de apoio são feitos para acolher apenas um tipo de maternidade: a de mães neurotípicas. Atypical captura essa bolha perfeitamente.
E se Elsa representa a superproteção, Doug (Michael Rapaport), o pai, representa a fuga. A série é brutalmente honesta ao mostrar como ele teve dificuldade em aceitar o diagnóstico, e seu arco é o da reconexão. Enquanto Elsa precisa aprender a “soltar”, Doug precisa aprender a “segurar”. Vemos sua tentativa, muitas vezes desajeitada, de se aproximar de Sam, tentando encontrar um terreno comum. Ele é o retrato do pai que, confuso e sem saber a “língua” do filho, aprende pelo caminho.
Por outro lado, minha admiração por Casey (a irmã) é total. Para mim, ela é a segunda personagem mais fantástica da série, logo após Sam, e a atuação de Brigette Lundy-Paine é brilhante. O roteiro mostra sua lealdade feroz ao Sam — o modo como ela o protege é o tipo de apoio que todos deveriam ter. Ao mesmo tempo, a série valida sua frustração, sua própria jornada de autodescoberta e a negligência que sente, já que “tudo na casa gira em torno da rotina do Sam”. Ela é a representação perfeita do peso, do amor e da negligência que muitos irmãos neurotípicos de autistas sentem.
A Técnica: A Ponte da Empatia
A técnica da série é sutil, mas fundamental para nos colocar dentro da história.
A voz-off de Sam é a ferramenta mais importante. Não é uma muleta; é a “ponte da empatia” que traduz a lógica interna e literal do autismo para o público. É como ela nos permite entender Sam “por dentro”, e não apenas julgá-lo “por fora”.
A direção de fotografia complementa isso. Ela é íntima, cheia de close-ups que capturam microexpressões e focada em detalhes, simulando o hiperfoco de Sam. Nos momentos de crise, a mixagem de som sutilmente aumenta os ruídos do ambiente, nos fazendo sentir a sobrecarga sensorial junto com ele.
A trilha sonora é quase inteiramente de música indie (alternativa) e pop. Sua única função é sublinhar o tom de “amadurecimento” (coming-of-age). Ela está lá apenas para dar a sensação de “esta é uma história sobre jovens descobrindo a vida”.
Veredito: A Importância de ser Vista
Atypical não é uma série perfeita, mas sua evolução é louvável. Em minha perspectiva é a melhor série da atualidade sobre autismo nível 1 de suporte.
Sabemos que o autismo possui diversos contextos e vivências, e sendo uma autista com diagnóstico tardio, que mascarou o autismo por muito tempo e tive diversos diagnósticos errados ao longo da vida, me senti vista e representada na série.
A série conta uma história universal sobre família, independência e o que significa amar alguém — não pelo que você quer que ela seja, mas por quem ela é.
Para mim, foi um espelho. E no final das contas, a boa arte é isso: a chance de, finalmente, nos sentirmos vistos.







